12/10/2026
Foto: “O Sentido da Água”, de Mohammad Rasoulof
A 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo apresenta na sua programação os cinco curtas-metragens realizados no primeiro ciclo do Displacement Film Fund (DFF), fundo que apoia o trabalho de cineastas deslocados e daqueles cujas narrativas abraçam histórias sobre deslocamento. A iniciativa foi criada pela atriz e produtora Cate Blanchett, que também é Embaixadora Global da Boa Vontade do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). O Hubert Bals Fund, do Festival Internacional de Cinema de Roterdã (IFFR), atua como parceiro de gestão, além do apoio de uma coalizão de especialistas da indústria cinematográfica, criadores, líderes empresariais e filantropos.
A ação, que foi anunciada em 2025 e selecionou os cineastas Hasan Kattan (Síria), Maryna Er Gorbach (Ucrânia), Mo Harawe (Somália/Áustria), Mohammad Rasoulof (Irã) e Shahrbanoo Sadat (Afeganistão), para receberem um subsídio de produção destinados à realização de seus filmes. Um ano depois, eles lançaram, respectivamente, os curtas “Aliados no Exílio”, “Rotação”, “Sussurros de um Aroma em Chamas”, “O Sentido da Água” e “Super Academia Afegã”, que estrearam mundialmente no IFFR 2026 e tem sua estreia brasileira agora na 50ª Mostra. O público poderá conferir, em uma mesma sessão que reúne os cinco títulos, histórias que retratam o deslocamento como tema central ou o olhar à distância sobre o país natal de cada cineasta.
Ao longo de 14 anos, o cineasta, fotógrafo e produtor sírio Hasan Kattan compartilha, com seu codiretor Fadi Al-Halabi, uma trajetória marcada pela guerra e pelo ato de contar histórias que ganha um novo capítulo em “Aliados no Exílio”. Confinados em um hotel para solicitantes de asilo no Reino Unido, Hasan e Fadi passam a documentar a espera, a burocracia e o exílio. Em meio à hostilidade crescente contra refugiados, eles voltam a câmera para si mesmos e refletem sobre amizade e deslocamento, e sobre como filmar pode se tornar uma forma de sobrevivência diante de um futuro tão incerto.
O cineasta iraniano Mohammad Rasoulof já realizou diversos filmes premiados internacionalmente, como “Adeus” (2011), pelo qual foi premiado o melhor diretor na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes, e “Não Há Mal Algum” (2020), que conquistou o Urso de Ouro do Festival de Berlim e o Prêmio do Público de melhor ficção internacional na 44ª Mostra, mas nenhum deles foi exibido no seu próprio país. Após anos enfrentando a censura e suportando pressões políticas, o diretor foi novamente condenado, em 2024, a oito anos de prisão e forçado a deixar o Irã, experiência que influencia o seu curta “O Sentido da Água”. Na trama ficcional, um escritor iraniano exilado retira-se com sua ex-amante para uma cabana de vidro sob a aurora boreal, onde pretende se despedir antes de retornar a sua terra para continuar a luta que deixou para trás.
Após seus primeiros longas, “Lobo e Ovelha” (2016), apresentado na 40ª Mostra, e “O Orfanato” (2019), a cineasta afegã Shahrbanoo Sadat passou a viver em Hamburgo, na Alemanha, desde a Queda de Cabul em 2021. No entanto, a diretora volta a focar no cotidiano da capital do Afeganistão em “Super Academia Afegã”. O curta é uma ficção em que um grupo de donas de casa se reúne durante a única hora do dia reservada para as mulheres em uma academia no centro de Cabul para conversar sobre padrões corporais e o dia-a-dia delas.
Com curtas que fizeram uma trajetória premiada em festivais internacionais, o cineasta e roteirista somali-austríaco Mo Harawe volta ao formato após fazer sua estreia na direção de longas-metragens em “A Vila Perto do Paraíso” (2024), filme exibido em Cannes e na 48ª Mostra. No drama “Sussurros de um Aroma em Chamas”, o diretor traz um músico de cerimônias que vê sua vida particular exposta ao escrutínio público, bem no dia de uma audiência judicial decisiva e de uma apresentação importante. Ele transita entre o tribunal, as ruas da cidade e o palco, lidando com o peso do julgamento após ser acusado de se aproveitar do próprio casamento e os dilemas que lhe afligem antes de uma decisão irreversível.
A diretora e roteirista ucraniana já retratou como as guerras deste século em seu país afetam seus habitantes no longa “Klondike: A Guerra na Ucrânia” (2022), premiado nos festivais de Sundance e Berlim, que se passava no início da Guerra de Donbass entre Rússia e Ucrânia, em 2014. A cineasta retorna ao tema no curta “Rotação”, que apresenta um ritual terapêutico de hipnose vivenciado por uma jovem ucraniana que deixou a vida civil para ingressar no serviço militar. Isso porque ela agora precisa de ajuda para se adaptar à nova realidade em que vive.
Confira abaixo a lista dos curtas-metragens do Displacement Film Fund exibidos nesta 50ª Mostra e suas sessões:
“Aliados no Exílio”, de Hasan Kattan (Síria, Reino Unido)
“O Sentido da Água”, de Mohammad Rasoulof (Irã, Alemanha)
“Super Academia Afegã”, de Shahrbanoo Sadat (Alemanha)
“Sussurros de um Aroma em Chamas”, de Mo Harawe (Somália, Áustria, Alemanha)
“Rotação”, de Maryna Er Gorbach (Ucrânia, Turquia, Suécia)
Sessões:
22 de outubro, quinta-feira, às 18h10, no CineSesc
23 de outubro, sexta-feira, às 15h45, no Espaço Petrobras de Cinema - Sala 2
28 de outubro, quarta-feira, às 19h45, na Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo
29 de outubro, quinta-feira, às 16h00, no Circuito Spcine - Centro Cultural Olido
Neste ano, a Mostra conta com o patrocínio master da PETROBRAS, o patrocínio do ITAÚ, a parceria institucional do SESC, a parceria da SPCINE e da Prefeitura de São Paulo, o fomento do ProAC – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, a colaboração da EMBRATUR e da NETFLIX, o apoio do PROJETO PARADISO, a promoção da GLOBOFILMES, do CANAL BRASIL, da FOLHA DE S.PAULO, da TV CULTURA, da ARTE 1, do INSTITUTO BANDEIRANTES e da REVISTA PIAUÍ, o apoio técnico da QUANTA e do CULTURA ARTÍSTICA. Realização: MINISTÉRIO DA CULTURA, através da LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA.