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Homenagens

Prêmio Leon Cakoff – James Gray

 

O desenho de um casal que se beija é a imagem feita pelo cineasta James Gray que ilustra a arte do cartaz da 50ª Mostra. A imagem pode ser interpretada como metáfora da ideia de cinema que o diretor nova-iorquino vem construindo há mais de três décadas. Sua filmografia é composta desse tipo de proximidade comum nas cenas de beijo, em que ficamos tão colados às faces que podemos sentir o que se passa no interior dos amantes. 

Muito antes de decidir estudar cinema e de realizar seus primeiros curtas universitários, Gray se apaixonou pela pintura. Como nessa arte que mergulha nas profundidades sem deixar o olhar escapar da superfície da tela, das figuras e das cores, seus filmes se colam aos espaços e a seus habitantes para sondar os mistérios e as desordens deles. 

Em seus filmes, a cidade natal do diretor, Nova York, não é a metrópole vertical dos arranha-céus e dos submundos do crime, mas sim a cidade horizontal dos bairros periféricos, dos prédios baixos e dos personagens que caem antes de se reerguerem. Suas narrativas são inundadas pelo peso da família, pela complexidade das identidades dos imigrantes, pela predominância da tragédia nas vidas comuns. 

Essa mistura de elementos tem como origem a própria biografia do cineasta. Gray nasceu em 1969, no Queens, numa família de imigrantes judeus russos. Sua infância e juventude transcorreram num contexto social de empobrecimento da classe média e de degradação da paisagem da cidade. No início dos anos 1980, quando assistiu pela primeira vez a filmes como “Operação França” (1971) e “Taxi Driver” (1976), encontrou ressonâncias do mundo de onde veio, representado em cores opacas e melancólicas. 

Gray poderia muito bem ter feito parte desse grupo que adicionou realismo, desilusão e anti-heroísmo ao cinema americano nos anos 1970. Ele nasceu na geração seguinte à dos célebres realizadores da Nova Hollywood, mas, espectador compulsivo, James Gray descobriu, com os filmes de Friedkin, Coppola e Scorsese, que o cinema podia ser artisticamente ambicioso. 

Seguindo essas pegadas autorais no universo do cinema americano, Gray aprofundou sua educação cinéfila conhecendo os mestres do cinema moderno. Visconti, Bertolucci, Kubrick, Kurosawa e Fellini tornaram-se suas referências estilísticas antes de ele entrar para a escola de cinema.  

Esse referencial estético, combinado com uma sensibilidade aguda para as emoções e para a incompreensão como destino das relações entre filhos e pais vem alimentando sua obra desde “Fuga para Odessa” (1994), seu primeiro longa, que recebeu o Leão de Prata do Festival de Veneza quando ele tinha 25 anos. 

As sombras se anunciam na primeira imagem desse filme, um plano dominado pela obscuridade até o surgimento parcial do olhar do personagem de Tim Roth. Assassino de aluguel, filho banido do ninho familiar, seu retorno não promete nenhum apaziguamento. Se a ordem familiar já era instável, sua reaparição desencadeia a destruição, tal como ocorre nas tragédias gregas. De “Caminho sem Volta” (2000) a “Tigre de Papel” (2026), a fraternidade, o amor e o ódio, as afeições e conflitos entre irmãos são temas recorrentes na filmografia de Gray. 

Outra vertente leva o cinema de Gray ao passado, ao cósmico, ao desconhecido. Em “Era Uma Vez em Nova York” (2013), ganha amplitude a dimensão social e histórica. A exuberante reconstituição de época e a exposição dos alicerces corrompidos do sonho americano elevam o cinema de Gray a outro patamar. Tal como fizeram, antes dele, Coppola, Leone e Cimino, o cineasta recupera o fascínio plástico e narrativo dos épicos históricos, combinando beleza visual e tragédia existencial. 

Esse cinema em tom maior se mantém em “Z: A Cidade Perdida” (2016) e “Ad Astra: Rumo às Estrelas” (2019). Embora os espaços — a selva, o cosmos — pareçam novos habitats para as ficções, até então nova-iorquinas, do cineasta, seu foco permanece sendo a desordem da família e suas possibilidades dramáticas e narrativas. 

“Tigre de Papel”, seu trabalho mais recente, mantém a mistura de drama familiar e contexto histórico. Enquanto “Armageddon Time” (2022) anunciava a era Reagan, o novo filme acompanha o desmantelamento do sonho americano em meio aos choques dos anos 1980. É o retrato de um país em transformação, onde a ruína do tecido social importa tanto quanto a própria construção formal. 

A 50ª Mostra homenageia com o Prêmio Leon Cakoff o cineasta James Gray, um artista com uma visão de cinema genuína e um autor que funde temas e formas clássicos às transformações do mundo contemporâneo. Uma obra que, afinal, nos ajuda a enxergar no escuro.