Cannes 2005 - Haneke e seu terror invisível, mais os destaques de `Un certain regard` com visões do México, Sri Lanka, argentina e Burquina Faso
16/05/2005
O 28o Festival de Cannes reservou para a sua competição Cachê/ Hidden/ Oculto, o novo filme do perturbador cineasta austríaco Michael Haneke, mais exposto mundialmente com o sucesso A Professora de Piano/ The Piano Teacher, também revelado em Cannes.
Oculto é uma concepção bem elaborada sobre as possibilidades de terríveis distúrbios psicológicos que se pode provocar com ações aparentemente simples. Haneke é especialista na arte de provocar distúrbios, de esfacelar harmonias de uma sociedade convencional que pensar comprar sua paz social simplesmente pagando algum imposto ao seu estado de direito. Estamos analisando cicatrizes do velho colonialismo europeu.
Nos filmes de Haneke os equilíbrios desaparecem facilmente e parecem revelar quão frágeis eles podem ser no jogo social. E pedem nervos de aço aos espectadores. E aí está o novo filme de Haneke que promete um jogo realmente excitante, palpitante, nervoso com um desafio que talvez seja o maior de todos no cinema fazer com que o espectador não despregue os olhos da tela por nada.
Ninguém pode imaginar como a felicidade de um casal francês de classe média, um filho pré-adolescente, pode ser perturbada assim de um só golpe. As primeiras imagens do filme já são as do atentado que irá se sofisticando ao longo da narrativa. As imagens são de um vídeo clandestino, que apenas mostra por duas horas um plano fixo da casa do casal, filmada da rua. Nós, espectadores, vemos apenas alguns minutos dessas imagens aparentemente banais e sem sentido. Mas para o casal (Daniel Auteuil e Juliette Binoche), isso é como um atentado terrorista. Significa que ele está sendo vigiado.
O jogo de esconde-esconde irá revelando aos poucos segredos de família do bem sucedido crítico literário. Segredos da sua infância e com um irmão adotivo, de origem argelina, que acaba voltando ao orfanato. O conflito maior está na crise de consciência de uma Europa abastada em confronto com as culturas que dominou em tempos de colonização. Para quem conhece os filmes de Haneke, sabe que a sensação psicológica é a de um torniquete que vai apertando em meio a situações inesperadas. Cachê, uma co-produção da França com Itália, Alemanha e Áustria não só é apontado como o melhor filme de Michael Haneke como também um dos melhores neste festival.
Da seleção de Un Certain Regard, alguns filmes marcantes:
Sangre, do estreante mexicano Amat Escalante, viola a intimidade de um casal simples da periferia, com o seu dia-a-dia de repetições mecânicas, no trabalho, em casa, na mesa e na cama. O fato extraordinário do filme é o de saber mostrar através desse casal episódios de uma tragédia que vemos como notícias banais no cotidiano da imprensa. A banalidade da violência é o fato extraordinário do filme. Um estreante que fará carreira.
Sulanga Enu Pinisa/ The Forsaken Land/ A Terra Abandonada, de Vimukthi Jayasundara, é uma impressionante revelação de um estreante de Sri Lanka. Perdidos no tempo e no espaço, um bando de soldados e civis, se cruzam como se vivesse uma guerra invisível. Tudo é bestial e de absurdo surrealismo, mesmo as buscas instintivas de sexo e de defesa. Outro filme de estreante que vai fazer carreira.
Nordeste, do também estreante argentino Juan Solanas, faz a sempre bela Caroline Bouquet viver o dilema de uma mãe adotiva que viaja pelo interior da Argentino em busca de uma criança. Através do seu olhar estrangeiro vemos a injustiça social e a miséria alerta, mas também com aquela conhecida solidariedade fugidia.
Delwendei / Lève-tois et Marche/ Levanta e Vá, do burquinense Saint Pierre Yameogo, segue a linha do cinema alegórico da África que preza a emancipação feminina e o respeito às mulheres. Se não submissas e marginalizadas a pretexto de radicalismos religiosos, o filme traz a carga de brutalidade contra mulheres com base em crendices ancestrais de bruxaria e maldições a pretexto de uma boa ou má safra de colheita. Um filme com todos os elementos e clichês para europeu ver e se solidarizar. À distância.
Mais informações em: www.festival-cannes.org