Cannes 2004 - terceiro e quarto dias Tarantino faz escola na Coréia e Lucrecia Martel se destaca na Argentina
17/05/2004
Ainda sobre Mondovino. O documentário de Jonathan Nossiter não sai da cabeça. Esta muito claro em sua denúncia a batalha entre secular artesanato e o lado nefasto da globalização. Fica evidente o papel da revista americana Wine Spectator e de seus críticos para favorecer safras e regiões européias e da Califórnia. É chocante constatar que a política norte-americana contra a França, por não ter se alinhado à sua política belicista contra o Iraque, provoca retaliações, desviando a atenção dos seus consumidores e
Old boy
turistas para a descoberta da região da Toscana e seus vinhos, inesperadamente eleitos como o número um pela mesma revista.
Em contrapartida, perdemos a sessão das 8:30 da manhã o filme de Kusturica A Vida é um Miragle/ Life is a Miracle por falha do despertador do hotel. Já me disseram que é ótimo. Recupero depois. E perdi ainda a lição de cinema pelo grande ator de Bergman, Max von Sydow. Cannes sempre provoca dolorosos sentimentos de perda. Mais do que prazerosos de descoberta.
O 9° filme - Bienvenue em Suisse, comédia da estreante suíça Lea Fazer. Um humor muito particular, com apelos populares, isto é, raso, busca o gosto francês pelo pátrio-egocentrismo. Uma questão de herança aproxima dois lados separados da família, uma vivendo em Paris e outra na parte francesa da Suíça, com todos os seus clichês de correição. Foi o filme de abertura da seção Un Certain Regard. Inapropriadamente.
O 10° filme Five/ Cinco, do iraniano Abbas Kiarostami (apresentação especial). Não se trata de um filme no lato senso. Trata-se da junção de cinco peças de vídeo-instalações, com planos fixos sobre movimentos humanos, animais (patos e cães) e da natureza (tocos boiando reflexo da lua na água), em algum lugar do mar Cáspio que poderia se confundir com qualquer beira-mar do mundo. Só que não deveria ser transformado em uma obra para cinemas. A radicalização de Abbas Kiarostami que ultimamente abandonou o cinema dito convencional para defender as facilidades do vídeo pode se voltar contra ele mesmo. O seu passado de mestre pode se dispersar na imaginação de novas gerações de cinéfilos.
O 11° filme Moolaadé, do senegalês Ousmane Senbèbe (em Un Certain Regard). Um modelo de cinema áfrica primitivo, com interpretações quase que teatrais, mas de grande importância sobretudo para as populações ignorantes que não abdicam das tradições de circuncidar violentamente a pobres meninas sem defesa. O filme de méritos educativos segue a batalha de uma mãe que se rebela contra essa brutalidade tribal.
O 12° filme Khâkastar-o-Khâk/ Earth and Ashes/ Terra e Cinzas, do estreante franco-afegão Atiq Rahimi (em Un Certain Regard). O livro é ótimo (lançado no Brasil por Estações Liberdade), direto e simples, escrito pelo mesmo Rahimi. Já o filme é ambicioso e pueril. Tem imagens deslumbrantes rodadas em pleno Afeganistão, seguindo o delírio de um velho personagem e seu neto que viaja para dar uma triste notícia ao seu filho que trabalha em uma mina de carvão: que a sua aldeia foi arrasada por bombardeios e que único pequeno filho que lhes resta ficou surdo pelo efeito das explosões. O que acontece então? O filme não passa a mesma comoção do livro. Promoções de ocasião como veja o filme, leia o livro se aplicam perfeitamente a este caso.
13° filme Old Boy, do sul-coreano Park Chan-Wook (competição). Correm especulações que se trata de um filme especial para a predileção de Tarantino presidente do júri. É um ótimo filme, um fenomenal quebra-cabeças inspirado em gibis japoneses, campeão de bilheteria em seu país. Um homem violento sofre um seqüestro que dura quinze anos. Ao sair do cativeiro, é um vingativo colérico que precisa descobrir quem o persegue de forma tão cruel. Inventivo e elegante, como num cenário de Kill Bill, a complicada fórmula de mosaicos vai sendo acrescida de requintes cada vez mais absurdos e violentos. Como em um filme de Tarantino, o humor negro constrange o nervosismo e o desespero claustrofóbico dos espectadores. Talvez o melhor filme do moderno cinema coreano.
O QUARTO DIA
Dá pra pular no sábado de manhã a sessão de Shrek 2, que não faltará oportunidade para ser visto. O que não dá é pra imaginar o júri presidido por Tarantino, que trabalha para a Miramax, que trabalha para a Disney, premiar este filme produzido pela Dreamworks, o maior concorrente dos próprios estúdios de animação da Disney. Perdemos também o argentino Los Muertos, de Lisandro Alonso que, segundo Richard Peña, diretor do festival de Nova York, é o melhor filme que ele viu até então no festival. Alonso, pelo que se ouve, repete a fórmula minimalista do seu anterior La Liberdad. Vai na onda de tolerância da nova onda do cinema argentino.
14° filme Tarnation, do estreante americano Jonathan Caouette (seção Quinzena dos Realizadores), com a bênção e produção executiva de Gus van Sant. Este sim o melhor filme até o momento em Cannes. Já vem de um grande sucesso no último festival de Cannes. É um documentário que custou apenas US$ 218.32, diz o diretor que usa todas as imagens existentes de seu álbum de família e de carreira de ator para vasculhar o passado de uma mãe tragicamente enlouquecida por uma seqüência de violência sexual na infância e uma adolescente cercada de drogas e tratamentos de eletrochoque em clínicas de tratamento psiquiátrico. Caouette investiga o próprio passado homossexual da sua personalidade, também a partir de uma infância problemática. Suas influências cinematográficas e musicais, revela, são das mais respeitáveis: Alejandro Jodorowsky, John Cassavetes, Lars von Trier, Marianne Faithful, Led Zeppelin, Mavis Staples e Sidney Lumet.
15° filme - LOdore del Sangue/ Cheiro de Sangue, do italiano Mario Martone (Quinzena dos Realizadores). Um drama de amor com pitadas pornográficas e um pesadelo de possessão doentia. Um casal liberado para o amor, cada um transando com quem queira desde que revele em detalhes o que faz para o parceiro, vai evoluindo muito mal. O casal franco-italiano de intérpretes é respeitável Fanny Ardant e Michele Placido. O que eles fazem ou vêem os outros fazendo em cena é incômodo.
16° filme The Heart is Deceitful... Above all Things, da italiana Asia Argento, filha do veterano Dario Argento. Uma descida ao inferno junkie na relação de mãe e filho, violento e cruel, inspirado na autobiografia de J.T. Leroy, escrito na sua adolescência. Para nervos fortes, como os filmes do pai.
17° filme Kontroll, do estreante húngaro Nimrod Antal (seção Un Certain Regard). Violência urbana, nos subterrâneos do metrô, os passageiros e a equipe de controladores que se mostra ineficaz na perseguição de um serial killer. O cinema húngaro, com o fim do socialismo, parece se recompor aos poucos no foco de personagens reais e da vida real.
18° filme Non ti Muovere/ Dont Move, do italiano Sergio Castellitto (Un Certain Regard). Castellitto, também ator, contracena com Penelope Cruz, como antiga amante perturbada de um cirurgião. As lembranças jorram nos corredores do hospital onde a filha do médico passa por uma delicada cirurgia com alto risco de morte. O ator e diretor Castellitto fazem um filme poderoso sobre desejo e dor.
19° filme La Ninã Santa/ The Holy Girl, da notável argentina Lucrecia Martel, aclamada em Cannes em 2001 pelo seu filme de estréia La Ciènaga. Este segundo filme, na competição do festival, tem os irmãos Almodóvar na lista de prestigiosos co-produtores. Seu poder indutor sobre a psicologia de personagens em situações de aparente normalidade é bem forte. Seu estilo de filmar aproxima-se agora da dos irmãos belgas Dardenne câmera nervosa, planos fechados em rostos ora perturbados, ora indiferentes. Fala-se de um caso de moléstia sexual praticado por um médico nos dias em que se encontra-se concentrado num hotel em congresso. A menina santa sente-se iniciada pelo atrevimento do médico que a acaricia nas nádegas em plena rua. O jogo da sedução não pode ir além pela prudência do médico. Mas as inconfidências da adolescente poderão provocar uma tragédia moral. Mais que um filme sobre iniciação sexual, estamos diante de um novo exercício de estilo, pleno de maneirismos, que de novo fará o delírio dos cinéfilos e a fúria dos impacientes.