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A Mostra
Internacional de Cinema não poderia deixar de registrar o ano em
que se comemora o centenário do gênio Luis Buñuel, com uma retrospectiva
significativa, selecionada entre os 32 filmes que ele rodou entre
a Espanha, o México e a França.
Buñuel
criou o surrealismo no cinema com Salvador Dali. E foi além, incorporando
anarquia e inconformismo em sua trajetória de fugas e exílios do
fascismo franquista, incluíndo aí tentativas frustradas de filmar
em Nova York, onde chegou a ser funcionário do Museu de Arte Moderna
para ter como nutrir a sua família.
Foi
recusado também em Hollywood antes de se estabelecer no México onde,
entre muitos filmes de baixo rendimento criativo, de encomenda,
conseguiu estabelecer um estilo e uma estreita colaboração com o
fotógrafo e gênio da iluminação Gabriel Figueroa (homenageado na
19ª Mostra). Perversão humana criada pela indiferença frente a desajustes
sociais, desejos reprimidos pela forte moral do seu tempo, uma radical
aversão ao clero, uma visão implacável contra a hipocrisia foram
marcantes na sua alucinante filmografia. Conheci Luis Buñuel em
Cannes, em 1971. Foi-me introduzido por outro fugitivo do fascismo
(português, do salazarismo), o jornalista Novaes Teixeira.
Caminhamos
juntos pela Croisette, o passeio a beira-mar, respondendo a suas
perguntas sobre a situação política no Brasil. No caminho de volta
vem vindo uma mulher alta em nossa direção. Abrimos passagem e ela
passa sem o reconhecer. Era Glenda Jackson, uma diva anônima em
seu passeio antes das sete da manhã numa Cannes então calma e provinciana.
Buñuel não resiste, segura-me pelo braço e pára: "Es fea pero me
habla al carajo!", sentencia o mestre.
Devo,
portanto, à solidariedade política e à sua fascinação pelas mulheres
esta rara e mágica hora de intimidade que me permitiu um dos maiores
gênios do cinema, cujos filmes nunca irei parar de rever em vídeo
ou na tela grande do cinema. Sua obra é e sempre será fascinante,
atual e corrosiva. Sem a anarquia, as invenções e o inconformismo
de Buñuel, o século do cinema teria muito menos... digamos, excitante.
Leon
Cakoff
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